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O papel da ideologia nas eleições de 2026

Bandeira do Brasil erguida ao céu simbolizando ideologia política e contexto eleitoral

As eleições de 2026 recolocam no centro do debate público uma questão antiga das ciências sociais: qual é o papel da ideologia na vida política? Em um contexto marcado pela polarização, pela circulação acelerada de informações e pela disputa constante por narrativas, compreender a ideologia torna-se menos um exercício de posicionamento político e mais uma necessidade analítica.

Clifford Geertz (2008, p. 107) interessava-se justamente na aplicabilidade do próprio conceito de ideologia. Para o autor, “o que é de maior importância agora é a questão de saber se essa absorção em um tema referente próprio destruiu inteiramente sua utilidade científica ou se, tendo se tornado ou não uma acusação, continua a ser um conceito analítico”. O assunto torna-se polêmico porque, na natureza da ideologia, está a paixão. É difícil para os homens admitirem análises que contornem desapaixonadamente as crenças às quais atribuem grande significação moral. “Não importa o quão puro seja o propósito. Os altamente ideológicos ainda podem simplesmente achar impossível acreditar em uma abordagem desinteressada de assuntos críticos e de convicção social e política, tratando-se então de uma impostura escolástica” (GEERTZ, 2008, p. 108).

Essa reflexão permanece particularmente atual diante das eleições de 2026. Em períodos eleitorais, diferentes grupos disputam não apenas votos, mas interpretações sobre a realidade social. As tensões sociológicas que incitam atitudes ideológicas e as estruturas simbólicas elaboradas através das quais essas atitudes ganham existência pública são complexas demais para serem compreendidas apenas por critérios racionais ou objetivos. Como observa Geertz (2008, p. 116-118), a dificuldade de lidar cientificamente com o significado das afirmações ideológicas faz com que muitos cientistas sociais simplesmente deixem de reconhecer esse problema.

A arte e a filosofia também oferecem contribuições importantes para essa compreensão. Como escreveu Geertz (1996, p. 178), “a arte e os instrumentos para entendê-la são feitos na mesma fábrica”. Assim, uma abordagem cujo objetivo seja explicar o significado de determinados indicadores culturais não pode ser uma ciência formal, como a lógica ou a matemática, mas uma ciência social, como a história e a antropologia.

Quando publicou A Interpretação das Culturas, em 1973, Geertz sugeria que o fermento ideológico era mais intenso em Estados novos ou recentemente independentes, particularmente na Ásia, África e América Latina (GEERTZ, 2008, p. 125). Contudo, a realidade contemporânea demonstra que democracias consolidadas também convivem intensamente com disputas ideológicas. Países economicamente desenvolvidos igualmente experimentam polarização, radicalização discursiva e conflitos em torno de identidades políticas, indicando que a ideologia não constitui uma característica exclusiva de sociedades em formação.

Utilizando como exemplo a Indonésia — país onde realizou extensa pesquisa de campo —, Geertz (1976) demonstra que momentos de profunda instabilidade política exigem interpretações que ultrapassem explicações exclusivamente econômicas ou institucionais. Para ele, quaisquer que sejam as forças políticas envolvidas em discursos ideológicos, estas não serão inteiramente sociológicas ou psicológicas, mas parcialmente culturais. Forjar um arcabouço teórico adequado para analisar tais processos tridimensionais constitui tarefa essencial das ciências sociais.

A ciência deve ter no horizonte a dimensão do diagnóstico e da crítica da cultura. Enquanto isso, a ideologia possui uma dimensão justificadora, referente “à parcela da cultura que se preocupa ativamente com o estabelecimento da defesa dos padrões de crença e de valor” (GEERTZ, 2008, p. 135). É natural, portanto, que ambas frequentemente entrem em tensão quando dirigidas à interpretação dos mesmos acontecimentos políticos.

Como sintetiza Geertz:

“Embora a ciência e a ideologia sejam empreendimentos diferentes, elas não deixam de ter relações entre si. As ideologias fazem exigências empíricas sobre as condições e a direção da sociedade, o que é assunto da ciência avaliar (…). A função social da ciência vis-à-vis as ideologias é, primeiramente, compreendê-las — o que são, como funcionam, o que dá origem a elas — e, em segundo lugar, criticá-las, forçá-las a chegar a termos com a realidade (…).” (GEERTZ, 2008, p. 134).

Essa reflexão oferece uma importante chave para analisar o processo eleitoral de 2026. Independentemente do espectro político, candidatos, partidos, influenciadores e intelectuais produzem interpretações da realidade que buscam justificar determinadas visões de mundo. O papel das ciências sociais não consiste em substituir uma ideologia por outra, mas em compreender como essas narrativas são construídas, quais símbolos mobilizam, quais interesses representam e como dialogam — ou não — com o conhecimento produzido empiricamente.

Nesse sentido, permanece atual a advertência de Monique Wittig sobre a construção de castas intelectuais capazes de determinar quem possui legitimidade para falar.

“Todos los oprimidos lo conocen y han tenido que vérselas con este poder que dice: no tienes derecho a la palabra porque tu discurso no es científico, ni teórico…” (WITTIG, 2006, p. 46).

A provocação permanece pertinente em um cenário em que diferentes grupos reivindicam autoridade exclusiva para definir o que é verdade, ciência ou conhecimento legítimo. A pergunta continua aberta: quem decide quem é sábio? O que caracteriza a sabedoria? E quais formas de conhecimento são reconhecidas como legítimas no espaço público?

As eleições de 2026 demonstram que essas disputas permanecem centrais para a democracia contemporânea. A circulação de ideias, valores e interpretações dificilmente poderá ser compreendida apenas pela análise das propostas eleitorais. É necessário compreender também os símbolos, as narrativas e os sistemas de significado que estruturam a ação política.

Mais do que um obstáculo à democracia, a existência de diferentes ideologias revela que a política continua sendo um espaço de disputa sobre a interpretação da realidade. O desafio das ciências sociais permanece aquele indicado por Geertz: compreender essas ideologias antes de julgá-las e confrontá-las, sempre que necessário, com o conhecimento produzido de forma sistemática e empiricamente fundamentada.